A categoria de longas-metragens baseados em recortes históricos volta aos destaques da Netflix. Em abril, os assinantes puderam contemplar Sergio, que seria qualquer produção caso não houvesse a sempre chamativa participação de Wagner Moura, especialmente para o público tupiniquim. Depois da sua atuação marcante como Pablo Escobar em Narcos, Moura praticamente tem permissão para abrir a geladeira e andar de roupão dentro da gigante do streaming.

Outro rosto que está gerando familiaridade é o de Édgar Ramírez, presente em The Last Days of American Crime e Bright. Portanto, chegou a hora de suas filmografias se cruzarem em Wasp Network: Prisioneiros da Guerra Fria, baseado no livro Os últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais.

A trama – polêmica, em tese –, é baseada em fatos reais e gira em torno de agentes cubanos infiltrados nos Estados Unidos. Eles têm como objetivo interceptar e deter ações terroristas promovidas por um grupo contrário ao regime de Fidel Castro.

A direção é de Olivier Assayas, de Vidas Duplas e Paris, Te Amo. Pelo calibre do elenco escalado, não há dúvidas de que Assayas tinha uma grande ambição, ele só não soube pesar a mão para que seu projeto fizesse jus ao que havia bolado em mente.

Com um plot tão intenso e grandes recursos para orquestrar uma verdadeira obra-prima, o diretor parece ter acionado o modo automático, entregando uma trama completamente linear e inócua. A montagem falha em oferecer nuances dramáticas e repete o tom ameno ininterruptamente, remetendo a uma tomada ligeiramente documental, mas lançando mão de incorporar elementos do gênero.

É uma vastidão criativa tão desértica que subjuga sua própria categoria: não sabe se é thriller político, drama, suspense… Aliás, é até mesmo difícil identificar qual é o posicionamento político adotado no filme. A intenção não é clara. Fica no ar.

Essas avarias conceptivas também afugentam as interpretações de um grande cast que, no fim das contas, serve meramente de marketing dentro da home da Netflix. Além dos protagonistas supracitados, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Ana de Armas, Leonardo Sbaraglia, Tony Plana e Adria Arjona, entre outros e outras, estão em completo desarranjo e fadados a papéis abjetos, destemperados e profundamente vazios, com um momento acentuado aqui e acolá. Uma matança de personalidade completa que não vale ressalvas.

Lançado em 2019, porém disponível para o grande público somente agora, Wasp Network desperdiça um potencial gigantesco e apresenta uma trama vazia e desnorteada, com montagem construída em modo automatizado. Uma pena. Mais uma produção a dividir o limbo criativo com A Última Coisa que Ele Queria e Sergio.